O que me impressionou em minha primeira viagem no VLT

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Foi neste domingo, em meio a chuva, que o VLT – Veículo Leve sobre Trilhos – finalmente foi inaugurado. Como alguns sabem, sou uma entusiasta da mobilidade urbana. Mesmo sabendo que nossa cidade está mergulhada em problemas, fico muito feliz com as transformações que o Centro vem passando. E foi por isso que decidi ir à Praça Mauá para conferir o novo bonde.

Peguei um ônibus até a Candelária, de onde seguiria andando. Qualquer um que já visitou a região em um final de semana, sabe que não é muito seguro e que as ruas ficam desertas. Entretanto desta vez foi diferente. Havia agentes de trânsito e do VLT por todo o percurso, além de diversos carros da Polícia Militar e da Guarda Municipal, algo que gostaria de ver com frequência.

Mal cheguei na esquina da Presidente Vargas com a Rio Branco e já avistei os fotógrafos. Apesar do funcionamento estar marcado para iniciar ao meio-dia, o primeiro trem em direção a Cinelândia já deslizava pelos trilhos. Ainda eram onze e meia e presumi que aquela era a primeira volta exclusiva para políticos e convidados. Com um pequeno carro da Guarda Municipal abrindo caminho, o VLT cruzou a minha frente. À distância, parecia bastante lento e silencioso. De perto, bastante cheio, com balões amarelos e muito samba. Deixando de lado minha implicância com esta batucada, acredito que uma bossa nova combinaria muito mais com o sentimento nostálgico dos bondes do nosso Rio Antigo e com a tranquilidade da viagem.

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Feita a minha crítica mental, segui em direção à parada dos Museus, nome dado à primeira estação da linha inaugurada, entre o Museu do Amanhã e o Museu de Arte do Rio – MAR. No caminho, passei por outra parada, a São Bento, sinalizada com um mapa das linhas e estações. O espaço de espera conta com bancos, cobertura e rampas para acessibilidade. Parte da estrutura é de vidro e eu desejo sinceramente que ela resista a vandalismos. Tenho apenas uma ressalva: infelizmente as rampas foram construídas com pedras portuguesas, o que dificulta o deslocamento de cadeirantes.

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O ponto estava cheio quando surgiu um segundo trem, para alegria dos que ali aguardavam. Uma animação que logo virou frustração. A composição não parou. Provavelmente também estava destinada a convidados.

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Chegando à Praça Mauá, cruzei com um pequeno grupo de manifestantes com cartazes e bandeiras vermelhas que estava deixando o local. Me deparei também com famílias e ciclistas que haviam ido conhecer o novo meio de transporte. Vi balões com a frase “Olho no VLT: atenção aos dois lados” na mão das pessoas e também nas barraquinhas de comida. De um lado idosos saudosos e crianças com suas expectativas. Do outro, manifestantes comentando que haviam “gastado o nosso dinheiro para comprar todas aquelas bolinhas”.

A fila para fazer o passeio era pequena, tendo em vista os chuviscos ocasionais. Porém, foi somente após a partida do primeiro trem aberto aos cidadãos, que liberaram o acesso para que as pessoas esperassem sob a cobertura.

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Todos os que trabalhavam na Parada dos Museus estavam verdadeiramente empenhados e preocupados com a segurança de usuários e pedestres. Guardas e policiais se preocupavam em alertar a todos que o trem iria passar.

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Depois de dar uma boa volta na Orla Conde, que é um passeio a parte, e nos arredores do Amanhã, resolvi entrar na fila. Fui uma das últimas a entrar no último bonde do dia. Os funcionários com coletes fluorescentes indicavam para seguirmos para os últimos vagões, que ainda tinham espaço, e ressaltavam que não era necessário correr.

Obviamente eu sabia que aquele era um programa-de-índio e que o VLT estaria cheio. Então, apesar de não estar lotado como nossos ônibus e metrôs em horário de rush, não posso falar muito sobre os bancos, as leitoras de bilhete-único e a existência de espaços reservados a cadeirantes. Todavia tenho muito a dizer sobre o que tornou aquela viagem uma experiência diferenciada em relação ao nosso transporte público.

Antes do bonde iniciar a viagem, um dos agentes ficava na porta, auxiliando a entrada das pessoas. Em um dado momento, ele pediu educadamente que liberassem a porta para que ele pudesse entrar com um carrinho de bebê. Apesar de alguns passageiros não considerarem aquela ideia muito boa, não é disso que se trata a verdadeira mobilidade urbana? Poder utilizar um transporte público sem dificuldades, mesmo quando se está empurrando um carrinho de bebê, carregando malas ou transitando com uma cadeira de rodas?

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A partida foi dada e, para a minha surpresa, o tal rapaz de colete permaneceu no vagão e seguiu viagem posicionado próximo à porta. Muitos tentavam tirar suas dúvidas com ele, que buscava responder a todos com muita atenção, educação e uma linguagem impecável.

Tentei fazer uma pergunta, mesmo estando distante, mas logo veio a primeira parada. A porta que abriria ficava do lado oposto. Então o funcionário atravessou o vagão, saiu e ajudou cada passageiro a desembarcar com segurança. Algumas pessoas mostraram certo desespero para sair a tempo, mas não há necessidade de correria.

Ao retornar ao vagão, o agente se desculpou e pediu que eu repetisse minha pergunta, pois não tinha conseguido escutar. Então respondeu atenciosamente a todo o meu bombardeio, interrompendo vez ou outra para avisar a alguma senhora que havia chegado a sua estação de destino.

O rapaz chamado Ivo me explicou que a presença deles nos vagões será constante e não apenas neste início. São os agentes de estações, que acompanham os passageiros durante o percurso. Suponho que serão os responsáveis por fiscalizar a validação no bilhete único nas leitoras quando a cobrança começar a ser efetuada a partir de julho. Existem ainda os agentes de bordo, que dão apoio nas paradas de ônibus.

Apesar de alcançar até 50 Km/h, o VLT roda a uma velocidade bastante inferior, 15Km/h, em média. Então foi engraçado ver a festa dos passageiros quando o trem pegava um pouco mais de velocidade.

O Ministério Público tentou adiar a inauguração do novo meio de transporte, alegando que este não oferecia segurança suficiente. Não foi o que vi. Havia placas de sinalização por todo lado e constante orientação e alertas para evitar acidentes.

Posso dizer que o que mais me impressionou na viagem foi o profissionalismo com que o agente de estação atendeu os passageiros. Algo com que não estamos acostumados. Ele contou que passou por um treinamento de dois meses e que, diferente de muitas contratações priorizadas pela empresa, ele não mora nas redondezas e sim, na Baixada.  Achei admirável sua dedicação e o valor que dava a seu trabalho, algo importante especialmente em um momento em que temos tanto desemprego no país.

Gostaria muito que este tipo de treinamento fosse realizado com todos os motoristas de ônibus e táxis da cidade do Rio de Janeiro, cujas condutas são motivos de reclamações frequentes.

Chegada enfim a estação Cinelândia, parabenizei Ivo pelo seu excelente trabalho e lhe desejei muito sucesso. Ele é um exemplo de extrema educação, gentileza e preocupação com os passageiros que tornará a experiência de mobilidade do carioca algo realmente muito melhor.

 

Por que não podemos ter Amsterdãs?

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As últimas semanas foram marcadas por ocupações das ruas pelos cicloativistas. Para quem não acompanhou, no dia 14 de março, em São Paulo e no Rio de Janeiro, foi promovida a Pedalada Pelada, edição brasileira da World Naked Bike Ride, que reivindica melhores condições de trânsito para os ciclistas. Os corpos expostos estampavam frases como “obsceno é o trânsito”, “assim NUS veem” e “+ amor  – motor”.

Já na última sexta, foi organizado um protesto contra a liminar que interrompia as obras das ciclovias na capital paulista a pedido do Ministério Público Estadual, sob a alegação de que faltavam estudos técnicos. O mais surpreendente da manifestação foi que, além da participação de muitas crianças com suas pequenas magrelas, a causa paulistana teve apoio em diversas cidades do Brasil e do mundo. Faixas com “vai ter ciclovias” foram erguidas no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Florianópolis, Fortaleza, Recífe, Natal e Manaus. Também estavam programadas bicicletadas nos Estados Unidos, Alemanha, México, Chile, Costa Rica e outros países. A liminar foi derrubada ainda enquanto os eventos ocorriam.

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O debate em torno da implantação das ciclovias começou a ganhar destaque em 2014, quando moradores de bairros nobres da capital paulista começaram a se opor. Falavam em ditadura da bicicleta. Alguns argumentaram que a região é residencial, que traria bagunça e insegurança ou que havia erros no projeto. Outros demonstraram a sua boa educação queimando pneus em áreas onde já estavam sendo realizadas obras. O ponto alto foi quando um cidadão chegou a declarar que quem anda de bicicleta não presta. A elite paulistana proprietária de automóveis, mergulhada em seu preconceito e necessidade de segregação, sofreu grande repúdio através das redes sociais. Foi tachada de carro-dependente. Sua insatisfação parecia estar motivada apenas pelo desconforto que precisariam enfrentar com menos pistas para circular ou menos locais para estacionar.

Até Lucia Santaella, autora de diversos livros sobre semiótica, deixou sua crítica a Haddad, prefeito de São Paulo. Baseada em argumentos sem sentido sobre um suposto prejuízo do vermelho ao sistema nervoso e poluição visual, e sugerindo associação visual com o PT, pareceu ignorar que a cor é utilizada em todo o mundo para identificação de ciclovias. E fechou seu desastroso post no Facebook com a pergunta “Ou será ele o ingênuo em querer nos fazer crer que vivemos em plena Amsterdam?”

O comentário infeliz reflete o pensamento recorrente da parcela da população que é contra as ciclovias. E foi o que motivou a jornalista Marjorie Rodrigues, brasileira residente na Holanda, a escrever uma carta aberta, onde rebateu os argumentos da estudiosa e apresentou um vídeo com o início da história de Amsterdam com as bicicletas.

O filme mostra que o progresso no pós-guerra trouxe o aumento no tráfego motorizado, marginalização dos pedais e a perda de muitas vidas, especialmente de crianças. Esses fatores, em conjunto com a crise do petróleo, foram responsáveis pelas primeiras políticas de transporte voltadas ao ciclismo na década de 70. Foram necessários muitos protestos, conscientização da população e governantes de atitude para construir a Holanda amiga dos ciclistas que conhecemos.

O que podemos perceber é que, tal como ocorreu na Holanda, estamos dando início à transformação de nossas cidades e ainda há muito trabalho a ser feito. Mais do que obras, é necessário educação no trânsito. O Rio de Janeiro ficou em 12º lugar no ranking de cidades bike friendly The Copenhagenize Index 2013, à frente de Paris. Apesar disso, em Copacabana, um dos bairros mais bem servidos de ciclovias e ciclofaixas, é comum ver ciclistas furando o sinal ou pedalando na contramão. Algumas vezes até furando o sinal enquanto pedala na contramão. Tanto motoristas quanto ciclistas precisam se reeducar. A prefeitura do Rio de Janeiro tem dado atenção a isso. Vem instalando placas de sinalização voltadas aos usuários de bikes em diversos pontos.

Grandes montadoras também estão se envolvendo na questão. Em fevereiro deste ano, a Fiat causou estranhamento ao veicular o anúncio do seu recente lançamento. O filme começa apresentando algumas características do novo modelo. Em seguida, surge um rapaz pedalando até a garagem de casa, onde o automóvel está guardado. A cena é acompanhada da locução: “Um carro inovador para quem tem muita personalidade. Até para deixá-lo na garagem sempre que dá para usar a bicicleta.” Uma comunicação realmente inusitada no segmento.

A Volvo, reconhecida mundialmente pelo alto grau de segurança dos seus veículos, também está atenta ao público de ciclistas e suas interações com os carros. Recentemente a montadora desenvolveu uma tinta que brilha no escuro para ser aplicada através de spray em bicicletas e equipamentos. Dessa forma, é possível pedalar a noite com mais segurança.

O importante neste momento é a participação de todos no debate. O engajamento de empresas, as novas políticas de transporte e a quantidade de bicicletaços só comprovam que já demos a partida rumo a um futuro com menor número de morte de ciclistas, menos trânsito e menor índice de poluição do ar. Um futuro em que viveremos em nossas próprias Amsterdãs organizadas, com a vantagem de um clima muito mais convidativo. Um futuro que depende de todos nós.

Atenção, senhores usuários!

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Oito e meia da manhã. O trem do metrô chegou à estação da Carioca e as portas do vagão se abriram. Em dois segundos foi possível ver uma cena comparável ao gado quando a porteira se abre. Me direcionei até a escada rolante, tentando me acomodar naquele aperto. Sem pressa. Ainda meio sonolenta, estacionei em um dos degraus, aguardando a chegada ao topo. Dois degraus à frente estava um casal. Um rapaz passou por mim e, em seguida, pediu licença ao casal. Eles se entreolharam e se espremeram para o rapaz passar. Tão logo deram passagem, largaram um tradicional “está com pressa, vai pela escada”. Diariamente vejo situações como esta. Algumas vezes até participo. Mas evito me colocar como protagonista.

Certa vez descia o segundo dos três lances de escadas rolantes da Cardeal Arco Verde, quando me deparei com duas senhoras emparelhadas nos degraus. Para quem não conhece, é uma das estações mais profundas do Rio. Se tivesse dois metros a mais de profundidade, estaríamos no centro da Terra. Além das escadas, temos que percorrer duas esteiras rolantes para atravessar os longos corredores. O tempo para chegar à plataforma de embarque é tão alto, que se iguala ao do percurso do ônibus até o Centro.

Neste dia não estava com pressa. Apenas não gosto de ver a vida passar em tão baixa velocidade. Educadamente, pedi licença às duas senhoras. Elas não emitiram nenhum comentário. Entretanto me olharam com expressão de reprovação e giraram os ombros em apenas dois graus, oferecendo um milimétrico espaço para minha passagem. Preferi ficar em silêncio. Contudo atravessei o pequeno vão como se meu corpo fosse dez vezes maior. Nada educado, realmente. Mas não é revoltante que você esteja agindo de acordo com as regras e lhe julguem da forma contrária? Poderia ter respondido àquelas caras feias ou simplesmente apontado para os adesivos nas escadas, que indicam que os usuários devem parar somente à direita.

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Sim, existe uma sinalização que orienta sobre a conduta correta nas escadas rolantes. Foi o que o Metrô Rio me respondeu pelo Twitter, quando sugeri uma campanha para que o lado esquerdo das escadas não ficasse bloqueado. É verdade! Há adesivos na parte inferior das laterais das escadas. Em tamanho pequeno e em local de difícil visualização. Em algumas estações, a informação está mais visível, disposta verticalmente na entrada das escadas. Porém os pictogramas causam confusão. Um orienta para manter-se à direita, enquanto o outro indica que o número máximo de pessoas por degrau é dois. No site da companhia de transporte, não há qualquer seção referente a regras de convivência no metrô e os avisos sonoros nas estações se restringem a instruções sobre o comportamento nas plataformas e nos vagões.

Em outras cidades, o desrespeito à regra ocorre do mesmo modo. Em São Paulo, onde algumas estações chegam a ter cinco lances de escadas rolantes e nem sempre há escadas convencionais, os avisos textuais em faixas amarelas gritantes não são suficientes para evitar os conflitos. Em Nova Iorque também são registradas confusões em algumas estações. Verdadeiras lutas contra a multidão se iniciam quando passageiros que desejam pegar o trem que está na plataforma encontram a passagem bloqueada.

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Já em Londres e Paris, a orientação, em geral, é respeitada. Seus cidadãos foram educados dessa forma. Mas não significa que londrinos e parisienses apresentem um comportamento exemplar. Os maratonistas das escadas se mostram rudes e até imprudentes, sem se responsabilizar pelos que não saem do caminho. Se um desavisado para à esquerda, no mínimo é atropelado, sem direito a reclamação.

Em todas essas cidades a discussão sobre a legitimidade da regra se polariza. De um lado, os que acreditam que caminhar pelas escadas rolantes pode economizar valiosos minutos. Os que solicitam que a companhia metroviária disponha de pessoal para fazer cumprir a norma. E até os que argumentam que o fluxo na escada rolante deve seguir a orientação para circulação de pedestres nas calçadas, ou seja, a lógica das ultrapassagens dos carros. A verdade é que o código de trânsito brasileiro não fornece qualquer instrução quanto ao trânsito de pessoas.

Em contraposição, estão os adeptos do “está com pressa, vai pela escada”. Essa justificativa isolada não passa de uma grosseria gratuita, já que caminhar pela escada rolante é mais rápido do que pela convencional. Mas alguns argumentos mais fundamentados apontam para documentos de órgãos dos Estados Unidos com a definição do que é escada rolante e de que a altura dos seus degraus não é adequada para a caminhada.

Concordando ou não, é necessário algum tipo de organização. É preciso evitar o empurra-empurra, os confrontos agressivos e os acidentes pelos degraus. O trânsito de pessoas deve fluir. Deseja apreciar a paisagem durante a viagem escada a cima, mantenha-se parado à direita. Uma simples atitude que facilita a circulação. Não cabe julgar a pressa alheia. Todos temos pressa em algum momento e por algum motivo. A tranquilidade e o passeio de um não devem atrapalhar a urgência do outro. Por que continuar agindo de forma não coletiva? Mais que uma questão de ordem, é uma questão de cortesia. De gentileza. De cidadania.

Esportistas de Go Pro

Passei dois verões tomando coragem para experimentar o stand up paddle. Ando de patins, skate… Já fiz parasail, parapente, zorbie, bungee jumping… Mas tenho certo respeito pelo mar. Namorei aquelas pranchas por meses. Conheci instrutores de quase todas as barracas do Posto 6 de Copacabana e recusei seus convites por diversas vezes. Instrutores entraram, instrutores saíram. O mar nunca estava flat o suficiente.

Até que um dia, finalmente, após quarar duas horas no sol, tomar uma água de coco e uma boa dose de coragem, ajustei o strep no tornozelo e entrei com uma prancha no mar. A água estava tão transparente, que era possível ver a areia do fundo. Vi uma água viva gigante e uma tartaruga. Dei dois mergulhos, avistei o Pavão Pavãozinho e o forte de Copacabana por um novo ângulo.

Após sair do mar, vi uma câmera GoPro na mesa da barraca e perguntei se tiravam fotos.

– Sim, tiramos. Algumas vezes os instrutores esquecem de levar para o mar. Você queria foto?

– Não, não. Só curiosidade. Vocês cobram pela foto?

– Não. Nós colocamos no Face. É só olhar lá!

Da segunda vez que entrei no mar, um dos instrutores estava com a câmera:

– Quer que eu tire uma foto?

– Não, não, valeu!

Surpreso, ele gritou para o outro instrutor:

– Aí, João! É a primeira vez que alguém não quer tirar foto. Acredita?

Foi o suficiente para que, em meu terceiro dia na prancha, o João remasse na tentativa de tirar uma foto minha. Por ironia, a bateria acabou.

A falta de desejo de registrar o momento soa um tanto estranha numa época em que vemos ciclistas com braços estendidos em tentativas intermináveis de cliques e skatistas com câmeras acopladas nos capacetes a cada quilômetro da orla.

O que há de errado em registrar um momento de diversão ou superação? Absolutamente nada! Em algumas ocasiões pode até ser útil filmar umas voltas de patins ou um rolé de skate para que se possa avaliar se as técnicas estão corretas ou se é preciso aperfeiçoá-las. Porém, a reflexão aqui é sobre fotografar tudo e a todo o momento, sem se permitir vivenciar as emoções e sensações proporcionadas pela atividade em si. O medo da queda e alegria por ter conseguido fazer certo movimento. O vento no rosto, o sol das costas, a temperatura gelada da água, a dor na perna, a respiração, a coordenação dos movimentos…

Aliás, é difícil até falar em coordenar os movimentos.  Essa mania de fotografar quando se está em movimento tem levado muitos a desatenção e acidentes. Basta observar a ciclovia por dez minutos. Quedas bobas de bicicleta. Choques entre skatistas, enquanto o da frente buscava o melhor enquadramento sem olhar a direção. Conflitos e desentendimentos no asfalto.

Na minha última ida à praia, enquanto aguardava uma prancha para ‘standupear’, uma menina com cerca de sete anos apareceu na barraca para devolver um colete salva-vidas. O colete não era daquela barraca. A menina parecia perdida. Perguntamos onde estava a sua mãe. Ela ficou meio desorientada, sem saber como responder. Uma colega se dispôs a acompanhá-la a procura de sua mãe. Ao entregar a criança e retornar, comentou que a mãe estava no mar em incansáveis tentativas de tirar uma foto do pai, que mal conseguia ficar de pé na prancha. Ambos negligenciando totalmente os cuidados com a filha.

Pessoas alugam uma prancha por meia hora e gastam quase vinte minutos posando para 54 fotos, em que apenas uma delas será considerada adequada para se tornar a foto de capa no Facebook. Meninos equipados com máscara e snorkel mergulham naquela região em busca de GoPros que caíram no mar e cujos donos não conseguiram resgatá-las.

Paus de selfie e capas para celulares a prova d’água são vendidos como água. Tentar fotografar a paisagem em um mirante ao fazer uma trilha é quase a mesma sensação de atravessar uma competição de esgrima.

Vá ao Parque dos Patins na Lagoa e observe quantos pais passam horas obrigando seus filhos a tirar fotos em posições definidas, quando, na verdade, eles ainda nem aprenderam a se equilibrar sobre as rodas. Pais roubando momentos de diversão dos filhos. Filhos cansados e mal humorados sem poder deslizar pela pista.

Repare em quantas jovens sobem no skate do namorado vestindo roupas estilosas e exigem que eles fiquem a disposição tirando fotos de suas mil poses. Elas realmente querem aprender a andar de skate? Conseguem dar ao menos três remadas no ritmo certo? Ou desejam apenas uma foto perfeita para exibir nas redes sociais?

É o que um amigo costuma chamar de esportistas de GoPro. Os momentos de lazer e a busca de superação no esporte amador dão lugar ao desafio de tirar a melhor foto ou produzir o melhor vídeo. Tudo por mais curtidas e por uma imagem que pareça radical.

Sim, podemos continuar registrando nossos momentos esportivos sorridentes. Mas que o tempo dedicado a isso seja breve, para que possamos aproveitar de forma plena os benefícios que nossas atividades podem nos trazer. Que deixemos de ser esportistas de GoPro e passemos a ser esportistas amadores reais, tentando se divertir e se superar.

Saio para trabalhar e não sei se volto

Entrei no ônibus e sentei estrategicamente no banco logo atrás do cobrador. Uma questão de segurança. Alguns minutos depois, ele me deu um tapinha na perna, abriu um sorriso gigante, mas não falou absolutamente nada. Girou em sua cadeira e passou a sentar de lado para a roleta e de costas para mim. Um tanto esquisito. Dois minutos depois, ele girou de volta, de frente para a roleta, e me perguntou:

– Você é professora?

– Não, não. Sou estudante. – respondi.

– E é estilista ou da costura?

– Não. Eu faço Engenharia.

– Ah! Engenharia Química? – e nem esperou que eu respondesse. Me enquadrou na área e emendou contando sobre os conhecidos que haviam estudado ali no Senai.

Por um momento da viagem, ele olhou fixamente para o fundo do ônibus, seguiu alguém que desembarcava e fez um comentário sobre o suspeito. Nossa conversa rumou para a habitual violência dessa linha.

– Essa semana entraram 4 caras armados e sentaram aqui na frente. Dois aí – e apontou para onde eu sentava – e dois do outro lado. Eles desceram e não fizeram nada.

– E que horário foi?

– Ah… por volta de uma da manhã.

– A noite é bem mais perigoso, né?

– Minha filha, qualquer horário é um risco. Toda semana tem um colega esfaqueado na linha. Na semana passada foram 3.

– Sério?!! Mas eles estão bem?

– Sim, estão bem sim.

– E já aconteceu alguma coisa com o senhor?

– Não. Nunca! Trabalho há 13 anos na empresa. As linhas boas são o 461, o 473 e o que vai para Charitas. Esse aqui e o 476 são terríveis. Todo dia saio para trabalhar e não sei se volto.

– Mas se você ficar na sua, eles não devem mexer com o senhor, né?

– Que nada!!! É a proteção de Deus. Tem uma passagem muito boa de Provérbios. Sempre leio.

Algumas cobranças depois, ele se aproximou e perguntou:

– Qual o seu nome?

– Nibia. E o seu?

– Nibia? Bonito nome! O meu é Noronha. Ta vendo isso aqui? – perguntou, puxando a foto de um bebê no celular. – Meu filho sumiu uns tempos de casa e depois me apareceu com essa encomenda. É meu neto, o Lincoln. Está com 9 meses.

Contou que o neto fica em sua casa, na Nova Holanda, enquanto seus pais vão trabalhar. E me mostrou mais fotos. Seu filho, Vitor Hugo, tem 20 anos e foi da bateria mirim da União da Ilha. Sua filha, Ana Carolina, é passista e tocava flauta.

– Ela aprendeu flauta no Pedro II. Mas aí, ela se meteu com umas patricinhas da Zona Sul e não ia mais às aulas. Foi jubilada!

Explicou que ela foi expulsa do Pedro II, quando faltava apenas um ano para concluir o ensino médio. Algumas vezes a escola enviou solicitações para que os pais comparecessem a reuniões. Porém ela assinava o papel e não lhes entregava o comunicado. Ana Carolina já perdeu uma boa oportunidade de emprego, porque não tem o certificado de conclusão dos estudos. Hoje ela cursa o supletivo na rede pública.

– Olha, Nibia… Nibia, né? Desculpe a expressão, mas eu quase tive um filho pelo c* quando soube! O Pedro II é reconhecido em todo o mundo. Foi uma tristeza muito grande… muito grande…

Ele foi realmente enfático em seu pesar. Contou que ela estudava lá desde a alfabetização. Ele estava desempregado na época do sorteio das vagas. Pegou os cinco reais da inscrição emprestado com um amigo, pediu carona para um motorista de ônibus, anotou o nome dele e seguiu até São Cristóvão. Ela foi sorteada para uma vaga no colégio. Dias depois, ele retornou até o ponto final daquele ônibus para pagar a passagem ao motorista.

Ao passar pelo Teatro Municipal, Seu Noronha se virou para a janela para observar a movimentação e comentou que estaria acontecendo alguma programação diferente por conta do policiamento.

– O senhor já foi ao Municipal? – perguntei.

– Já! Já fui várias vezes.

Disse que já não ia há um tempo, pois, nos dias de folga,tem preferido descansar. Então pegou o jornal e me mostrou o anúncio do Balé Kirov. Trocamos algumas figurinhas culturais. Ele já havia apertado a mão do Baryshnikov e entregado uma rosa para Tatiana Leskova. Aprecia Chopin, Strauss e Beethoven. Mas não gosta de ópera. Sua paixão mesmo é o jazz.

– Você conhece Glenn Miller?

– Não. – e comecei a me levantar do banco.

– Ele é um músico de jazz maravilhoso. Você precisa conhecer! Quer que eu anote num papel para você?

– Não, preciso saltar agora. Muito prazer! Noronha o seu nome, certo?

– Sim. Carlos Noronha de Almeida!

Entrei em casa. Abri o Google: Glenn Miller.

Seu Noronha, cobrador do 474. Grandes olhos verdes apreciadores da arte.

Eu amo muito a minha vida

Um cara em modo zumbi resolveu atravessar a avenida sem nem olhar para os lados. O cobrador do ônibus, puxou então assunto comigo. Lembro bem dele, quando, há mais de um ano atrás, começou a conversar sobre Direito com um passageiro e achei um desperdício de potencial. Após a freada brusca, ele começou a contar que sempre fica a pelo menos meio metro para dentro da calçada, para que nenhum carro suba o meio-fio e o pegue. E que, no semáforo, ele sempre espera 30 segundos para antes de atravessar a rua.

– EU AMO MUITO A MINHA VIDA! – disse ele. – Quero viver mais de cem anos! Ainda tenho muitos sonhos a realizar. Porque a vida é maravilhosa, não é mesmo? E se a gente não tem sonhos, não vale a pena viver. Os sonhos é que movimentam nossa vida.

Depois falou de quando tinha 23 anos e morava na Marques de Abrantes. Um amigo lhe convidou para uma festa de aniversário em casa e lhe ofereceu maconha.

– E se eu tivesse aceitado? Será que eu estaria aqui hoje?

E continuou contando que falava com seu filho único para não se envolver com nada disso. Um rapaz de 26 anos, que estuda Engenharia Elétrica na Universidade Veiga de Almeida.

– Ele gosta muito de lá e diz que os professores são muito exigentes. Mas chegou a chorar quando teve que se transferir para lá depois que a Gama Filho fechou. Já era para ele estar no 6º período, mas acabou se atrasando com isso.

E já é a segunda faculdade dele, que havia feito Faetec e seguiu na graduação de Análise de Sistemas, quando resolveu desistir já no último ano.

– E ele trabalha? – perguntei.

– Não, não trabalha não.

– E o senhor é que paga a faculdade dele?

– Não, não. Aconteceu uma história maravilhosa… preciso te contar. Onde você vai saltar?

– Já no próximo ponto.

– Poxa! Não vai dar tempo. Mas quando nos vermos de novo, eu te conto o final dessa história.

Seu Graciano, cobrador do 474, carequinha simpático com cerca de 50 anos. Um sonhador.

Timelines irreais

Namoro Fake: um serviço inusitado oferecido pela internet. Contratar alguém para simular um relacionamento através de curtidas e comentários no Facebook. Há vários pacotes: namorado, ficante ou simples paquera. Os namorados contratados são pessoas reais, que ganham 50% do valor pago ao site e os comentários são redigidos por quem os contrata.

Nem todos utilizam o serviço para fingir que estão namorando. Alguns contratam três ou quatro ficantes para receber elogios e cantadas e, assim, atrair a atenção dos demais usuários. Outros contratam apenas paqueras para causar ciúmes no companheiro.

O criador do site resume a motivação dos usuários à carência virtual, solidão e insegurança. Mas não se trata exatamente disso. Não estamos falando da vontade dos solitários de ter alguém a seu lado. Como o próprio dono da empresa declarou, o status namorando deixa a pessoa por cima. Então estamos falando da necessidade de mostrar à sociedade que estão cumprindo o papel convencionado como normal e de sucesso: namorar, casar, ter filhos.

Este serviço é diferente do Amigos de Aluguel, criado há alguns anos, onde os clientes buscavam companhia para ir ao cinema, ao teatro ou somente para uma conversa. Neste caso, sim, podemos falar em solidão ou carência.

O usuário do Namoro Fake é, na verdade, uma versão virtual de um perfil específico de cliente do Amigos de Aluguel. Aquele que buscava alguém para acompanhá-lo em uma ocasião social ou de trabalho. É a tradicional situação em que um rapaz convida uma amiga para acompanhá-lo em um casamento, pois não quer aparecer sozinho. Ninguém quer parecer sozinho.

O sucesso do Namoro Fake representa o quanto as pessoas estão dispostas a mostrar que estão desempenhando o que a sociedade espera.

Que transformações alcançaríamos se seus usuários, ao invés de alimentarem essas cobranças sociais,  investissem o mesmo esforço em mudar a mentalidade e os padrões estabelecidos por essa sociedade que tanto lhes pressiona?

Deixando este aspecto de lado, toda essa discussão nos leva a perceber o quanto uma representação online da vida pode estar descolada da realidade. Muito se falou sobre o perfil de quem adquire esses tipos de serviço. No entanto, não se comentou sobre a crença ingênua e quase cega dos espectatores em tudo o que aparece em suas timelines.

Você pode postar no Twitter que está no Arpoador vendo o melhor pôr-do-sol, quando na verdade está em casa. Pode escrever no LinkedIn que está assistindo um excelente seminário, quando de fato está entediado no whatsapp, rezando para que o palestrante termine. Pode entrar às duas da manhã do Facebook para comunicar que teve uma noite espetacular no dia dos namorados, enquanto, se isso fosse mesmo verdade, estaria a quilômetros de distância da internet. Pode postar no Instagram uma foto romântica na Torre Eiffel, acompanhada das hashtags #love e #paris, quando, na realidade, esteve apenas por cinco corridos minutos no local, em meio a uma DR com a namorada.

Soa um pouco exagerado, mas é o que temos vivido. Recentemente saí de casa para fotografar a orla, deixei meu longboard encostado em uma árvore, enquanto tentava enquadrar a paisagem. Depois de ter passado duas vezes por mim, um rapaz de uns 35 anos me abordou e perguntou se poderia subir em cima do meu skate para que eu tirasse uma foto.

Foi um pedido um tanto esquisito. Uma necessidade de parecer cool, in ou qualquer outro adjetivo que resulte em curtidas, já que, do outro lado, os espectadores continuam levando a sério a felicidade simulada e estampada nas redes sociais. Esquecem que timelines não são uma representação integral da vida.

A morte vira piada

Eduardo Campos morre em acidente aéreo. Imediatamente chovem milhões de memes na timeline e no zapzap. Quase não acompanhei as redes sociais naquele dia, mas li um comentário interessante de um amigo:

Eu não sei dizer se as pessoas mudaram, ou se as redes sociais nos mudou.

Talvez não tenhamos mudado tanto. O show de horrores que dominou as redes sociais após a notícia da tragédia nada difere da filosofia “perco o amigo, mas não perco a piada” que muitos de nós sempre seguiram.

Nosso comportamento online muitas vezes não passa de uma versão amplificada do nosso agir offline. Um homem que divulga na internet vídeos de momentos íntimos com uma jovem é a versão multimídia de um tradicional “a novinha pagou o maior boquete” largado em qualquer mesa de bar. Mas quantas adolescentes não tiveram que mudar de escola, bairro ou até cometeram suicídio após uma exposição íntima que ganhou o mundo? Uma mulher que avalia seu ex-namorado no já esquecido aplicativo Lulu é só uma versão covarde e de maior alcance de um bate-papo entre amigas. Porém quantos homens não foram prejudicados nos seus empregos ou em seus relacionamentos com isso? E seguimos por aí com o app da vez: o Secret, onde segredos são revelados de forma anônima, sejam eles verdadeiros ou não.

A única diferença do offline para o online é que no primeiro as pessoas ainda colocam limites a suas curiosidades, impulsos e discursos em prol de uma convivência saudável e respeitosa, enquanto no último tudo isso ganha mais espaços e possibilidades, sem qualquer preocupação.

Mas os dois universos não fazem parte da vida real? Por que esquecemos de ativar nossas travas nas redes sociais e nos deixamos perder em meio à insensibilidade, à covardia e falta de consideração? Por uma simples curiosidade? Mera zoação?

Foi preciso que nossa falta de humanidade com a morte de um político fosse compartilhada em grandes volumes para que nos déssemos conta de que é preciso mudar.

E se todos os textos publicados na última semana levantando essa questão não forem suficientes para nossa reflexão, vale assistir a séria britânica Black Mirror para conhecer alguns cenários que poderemos chegar a viver. Com cerca de seis episódios independentes, ela nos apresenta possibilidades de um futuro próximo, totalmente plausíveis no universo tecnológico e comportamental de hoje. Situações provocadoras e até chocantes como a apresentada nos primeiros minutos do episódio The National Anthem. Nele, a princesa da Inglaterra é sequestrada e, para que não seja assassinada, uma exigência deve ser cumprida: o primeiro ministro precisa fazer sexo e o ato deve ser exibido em rede nacional. Com um detalhe: sexo com um porco.

Inusitado? Sim. Mas plenamente possível nos dias atuais, onde acompanhar a desgraça alheia sem qualquer sentimento virou lugar comum. Quantos torceriam para que seus governantes sofressem uma humilhação como essa, sem sequer pensar em seus familiares?

Um dos motivos que tem levado usuários a sair do Facebook é o excesso de brincadeiras de mau gosto e de informações inúteis. Já passamos da época em que rede social era novidade. Já conhecemos bem as consequências de tudo o que postamos. É preciso dosar! Que tal se, em vez de abandonar as redes sociais, como um brinquedo que parece não ter mais graça, nós aprendêssemos a usá-las de forma útil, benéfica e agradável?